No Dia do Hospital, colaboradoras do Hospital do Câncer em Uberlândia narram suas experiências durante a pandemia da COVID-19

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Era 11 de março quando a Organização Mundial da Saúde declarou o surto do novo coronavírus como uma pandemia global. No Brasil, cerca de trinta e oito pessoas já tinham sido testadas positivas para a COVID-19. A orientação das autoridades era a mesma para quase todo mundo: fiquem em casa. As únicas pessoas que não poderiam obedecer a essa recomendação e que estariam iniciando uma jornada na linha frente de uma crise sanitária eram eles, os profissionais da saúde. 

“Foi nesse momento que eu tive a certeza de que o Hospital do Câncer é um setor essencial e, por isso, nós não poderíamos parar”, conta Dra. Claudia Tavares, vice-chefe do setor de oncologia do Hospital de Clínicas da UFU. Ela assumiu a direção do Hospital do Câncer durante esse período e relata que sua primeira atitude foi tomar uma série de medidas junto ao Comitê de Enfrentamento à COVID da UFU para organizar o fluxo de pacientes dentro do Hospital. Neste exato momento, ela lembra que dois sentimentos surgiram: medo e solidão. “Esses sentimentos sempre existiram porque ninguém sabia como tratar a doença e, nos primeiros momentos, nossa rede de apoio era só nós aqui dentro”, conta. 

Dra. Claudia Tavares, vice-chefe do setor de oncologia do Hospital.

Sinara Marques, coordenadora da Enfermagem do setor de Quimioterapia; Denise Diniz, administradora do Hospital; Fernanda Freitas, secretária do Núcleo de Voluntários e Lívia Peres, coordenadora da Enfermagem do setor de Cuidados Paliativos, fazem parte do grupo de colaboradores que traçaram as estratégias de proteção junto a Dra. Claudia. Elas contam que sentiram as mesmas coisas, mas logo em seguida surgiu um sentimento de união em prol do paciente. “A segurança que a Dra. Claúdia nos passou foi fundamental. Para proteger os pacientes, nós começamos a assumir posições dentro do Hospital que nos deixavam extremamente vulneráveis. Foi um ato de coragem”, relata Denise.

Uma dessas novas posições foi a Triagem, um posto localizado na porta do Hospital do Câncer desenvolvido para controlar o fluxo de pessoas na instituição. Só no último mês, a Triagem identificou cerca de 30 casos suspeitos de coronavírus. Apesar de idealizado pela equipe médica, quem tomou frente dessa estratégia foi a equipe de Enfermagem. “Eu fui relutante no início”, conta Lívia, “cuidar do paciente durante a pandemia já nos trazia muita exaustão. Mas quando eu percebi que só um profissional da saúde poderia identificar quem precisava estar dentro do Hospital, eu percebi que meu lugar era ali”. A Triagem, de fato, é uma posição de muita vulnerabilidade, Sinara conta que já sofreu diversas retaliações, “meu coração dispara toda vez que eu abro a porta do Hospital. Existe medo, mas esse trabalho deve ser feito”, completa.

Sinara Marques, coordenadora da Enfermagem do setor de Quimioterapia do HCa. 

Quando o Hospital decidiu afastar quase 500 voluntários que fazem parte do grupo de risco, Fernanda foi outra que assumiu diferentes funções. Junto a equipe médica, ela desenvolveu uma nova estratégia para, ao mesmo tempo, dar suporte aos pacientes e protegê-los. “Se antes nosso lanche era manipulado e servido por uma equipe de voluntários, hoje eu faço isso com o apoio de outros colaboradores que escolhem me ajudar e nós servimos apenas comidas empacotadas”, relata Fernanda.  

Fernanda Freitas, secretária do Núcleo de Voluntários do Grupo Luta Pela Vida 

No dia 02 de Julho, data em que se comemora o Dia do Hospital no Brasil, o Hospital do Câncer em Uberlândia completa seu quarto mês com medidas restritivas para conter o contágio do novo coronavírus. Durante todo esse período, a instituição não deixou de atender um único paciente com câncer. Dra. Claudia justifica esse feito notório à dedicação de toda a equipe de colaboradores médicos e administrativos. Segundo ela, “nós, médicos, temos a consciência de que seremos os últimos a sair da sala e apagar a luz no pior dos cenários. Mas não cabia a mim pedir aos outros que ficassem. Os que ficaram, escolheram isso porque entendem a importância dessa assistência. Ficaram pelos pacientes”. 

Questionada sobre o motivo de ter escolhido continuar trabalhando no Hospital durante a pandemia, mesmo quando foram apresentadas outras alternativas para o afastamento, Fernanda é incisiva: “Fiquei porque isso aqui me pertence. Dar o carinho e assistência ao paciente é muito importante e alguém tem que fazer isso”. Já Denise conta que seus motivos são outros. “Eu trabalho nos bastidores, não tenho esse contato com os pacientes, então minha motivação não sai desse lugar.”, e depois de pensar um pouco, conclui: “Eu venho pelos meus colegas. Durante esse período, nós desenvolvemos uma corrente de apoio muito grande e eles são minha motivação diária”. 

Denise Diniz, administradora do Hospital do Câncer em Uberlândia.

União é a palavra mais repetida por elas. Dra. Claudia conta que nos momentos mais críticos e solitários do período, eles eram o apoio uns dos outros. “A pandemia veio para ratificar que todos são extremamente importantes aqui dentro. Não é um título de doutorado que vai fazer a diferença nesse enfrentamento, mas sim entender qual a importância que cada um tem nessa engrenagem”, ela conta emocionada, “esse período fortaleceu a certeza de que não estamos sozinhos aqui dentro. Só vamos crescer pessoal e profissionalmente, quando assumirmos que precisamos um dos outros”. 

Que hoje, dia 02 de julho de 2020, Dia do Hospital, possamos entender a dimensão do trabalho desenvolvido pelos profissionais da saúde dentro dos Hospitais. No meio de tantas inseguranças e de uma crise sanitária sem precedentes, são eles quem arriscam suas vidas para salvar a nossa. O nosso agradecimento a todos os colaboradores médicos e administrativos que continuam lutando pela vida do paciente dentro do Hospital do Câncer em Uberlândia. Como relatou Lívia, “as pessoas que hoje nos questionam e nos maltratam, lá na frente vão nos agradecer e reconhecer que tudo o que estamos fazendo é por elas”. 

Lívia Peres, coordenadora da Enfermagem do setor de Cuidados Paliativos do Hospital do Câncer em Uberlândia. 

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